A valorização do engenheiro é um item obrigatório entre as metas de
todos os clubes de engenharia e demais associações de engenheiros em
todo o Brasil. Faz parte também do ideário apresentado como missão do
Confea e de todos os conselhos regionais a ele vinculados.
Entretanto,
poucos sabem como prover essa valorização. Logicamente, a valorização
profissional implica melhor remuneração pelo trabalho realizado.
Entretanto, isso é apenas uma conseqüência de diversos fatores.
Efetivamente, a valorização profissional do engenheiro correlaciona-se
fortemente com inúmeros condicionantes, tanto internos como externos.
Assim, a situação econômica nacional e internacional, o mercado
imobiliário, as políticas habitacionais, o incremento industrial, o
planejamento do desenvolvimento do país, o investimento em
infra-estrutura são alguns dos fatores exógenos de forte atuação.
É
indubitável que a valorização do engenheiro está associada de forma
indissolúvel ao fortalecimento das empresas de engenharia, que, por sua
vez, são dependentes de um ambiente favorável. Para exemplificar, vamos
relatar algumas fases, favoráveis ou desfavoráveis, ocorridas nos
últimos 80 anos. Em 1929, o “crack” da bolsa de Nova York instaurou uma
crise econômica gigantesca que logo se espalhou pelo mundo, trazendo
uma situação aflitiva para os engenheiros brasileiros que viram minguar
suas oportunidades de trabalho. Já na era Vargas, tivemos uma fase
propícia nos anos 40, que se iniciou com a implantação da Cia
Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (1940); e teve prosseguimento
com a criação da Cia Vale do Rio Doce, em 1942, e da Cia Hidrelétrica
do São Francisco (1945). Outra fase extremamente favorável para a
valorização profissional do engenheiro ocorreu no Governo J K, quando
foi implantado um plano de 30 metas, além da construção de Brasília.
Tivemos a criação das indústrias automobilística e naval; o início da
construção da hidrelétrica de Furnas; o incremento da construção de
rodovias; o aumento da produção de cimento, aço e papel; e a
instalação, no país, de mais de 400 multinacionais. De negativo,
tivemos o início da época de instabilidade econômica e monetária,
responsável, mais tarde, por uma fase muitíssimo desfavorável, na qual
o empresário industrial preferia colocar seus recursos no mercado
financeiro, pois o “open market” era muito mais atraente que qualquer
investimento para aumentar a produtividade ou ampliar suas instalações
fabris. Nos governos militares (1964- 1985 ), coexistiram fatores
altamente positivos, como a implantação da cultura do planejamento, a
criação do Banco Nacional de Habitação – BNH, o forte investimento em
infra-estrutura que nos proporcionou a construção de grandes
hidrelétricas, como Itaipu e Tucuruí; o início da implantação do
programa de energia nuclear; o sistema interligado de linhas de
transmissão de energia elétrica; a Ponte Rio-Niterói e outras obras
rodoviárias; o fortalecimento das empresas nacionais de construção
pesada, que incrementaram seus equipamentos e adquiriram status
internacional; o engrandecimento da engenharia brasileira de projetos e
consultoria; e condicionantes negativos como o ambiente inflacionário e
as restrições aos direitos individuais. Os anos 80 caracterizaram-se,
na América Latina, pela estagnação econômica, verificando-se uma forte
retração da produção industrial e um menor crescimento da economia como
um todo, fazendo com que se popularizasse a denominação de década
perdida. Entretanto, sob o enfoque mundial, os anos 80 foram de
singular importância por se constituírem como uma fase de transição
entre a Era Industrial e a Era da Informação. Fatores extremamente
negativos para a engenharia brasileira foram a extinção do BNH (1986) e
o esfacelamento das empresas de consultoria e projetos. Em 1994, o
Plano Real deu início ao processo de estabilidade econômica,
imprescindível à retomada do desenvolvimento sustentável. Essa
estabilidade, sem inflação, obtida no governo de Fernando Henrique
Cardoso e mantida no governo Lula, é um dos fatores mais favoráveis na
conjuntura atual. O gasoduto Brasil-Bolívia (FHC) e, no período Lula, o
início da exploração petrolífera no pré-sal, além do ressurgimento da
indústria naval e do advento do PAC (Programa de Aceleração do
Crescimento), apesar do seu viés eleitoreiro e execução capenga, são os
aspectos positivos que de mais perto afetam os engenheiros. A falta de
um projeto nacional de desenvolvimento é, no momento, um dos mais
sérios aspectos negativos.
No parágrafo anterior, listamos
diversos condicionantes exógenos que atuam sobre a valorização do
engenheiro. Porém, são muito importantes, também, os fatores endógenos,
sobre os quais temos maior poder de controle, justamente por serem
internos, dentro do campo da engenharia e da atuação do próprio
engenheiro. Entre esses condicionantes, podemos salientar o respeito ao
código de ética; o combate à corrupção; e a melhoria da formação do
engenheiro, por meio do aprimoramento da qualidade do ensino nos cursos
de graduação e da conscientização da necessidade da educação
permanente, sobretudo nessa nova era de supremacia do conhecimento.
O
Código de Ética Profissional vigente é fruto de profícuo trabalho,
concluído em 6 de novembro de 2002, elaborado pelas entidades
representativas dos profissionais da Engenharia, da Arquitetura, da
Agronomia, da Geologia, da Geografia e da Meteorologia. Entre os seus
preceitos, salientamos o que estabelece o objetivo dessas profissões
voltado para “o bem-estar e o desenvolvimento do homem, em seu ambiente
e em suas diversas dimensões: como indivíduo, família, comunidade,
sociedade, nação e humanidade; nas suas raízes históricas, nas gerações
atual e futura.” Ainda com relação ao objetivo da profissão, é
estabelecido que “a profissão é bem cultural da humanidade e o
profissional é o agente capaz de exercê-la, tendo como objetivos
maiores a preservação e o desenvolvimento harmônico do ser humano, de
seu ambiente e de seus valores”. A honradez da profissão é frisada com
as seguintes palavras: “a profissão é alto título de honra e sua
prática exige conduta honesta, digna e cidadã”.
Podemos, então,
concluir que para promover a valorização do engenheiro, suas entidades
representativas precisam, antes de mais nada, cultivar o pleno respeito
aos princípios éticos, incluindo o combate a todas as formas de
corrupção, sobretudo no que diz respeito a obras púbicas e demais
contratos de engenharia com entes governamentais; procurar oferecer
oportunidades de aperfeiçoamento técnico aos engenheiros, mediante a
promoção de seminários, congressos e cursos de especialização; e,
finalmente, se fortalecerem de forma a que tenham voz ativa na
discussão das questões nacionais.
Carlos R. S. Moura é engenheiro civil e presidente do Clube de Engenharia de Brasília.
Eng.º Carlos Roberto dos Santos Moura
Presidente